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COMPANHEIROS DE TREM josé roberto de melo Viajei muito de trem. Entre Cortês e o Recife. Viagem feita em duas etapas: Do Recife até Ribeirão no trem de Catende: de Ribeirão a Cortês no pequeno trem do ramal. A composição ferroviária era o único transporte coletivo que dava acesso a Cortês, então vila. E o ramal não funcionava todo dia. Viajava-se regularmente apenas três vezes por semana. No domingo um horário especial, com a volta no fim da manhã que servia mais à feira de Ribeirão. Gastava-se um pouco mais de quatro horas em todo o percurso. E não sei como aguentava viajar de paletó, engravatado e ainda coberto por um guarda-pó para garantir a roupa limpa no fim da viagem. No trem de Catende um carro restaurante, onde era servido um café apreciável: bananas fritas, cobertas com queijo ralado, e ovos estrelados com pão quentinho. No jantar bife ou churasco e logo se descobria que a carne era mesma, preparada da mesma forma, mudavam os acompanhamentos, isto é, quando se pedia churrasco, vinha farofa no prato. Eramos servido por Doia um permanente garçom, simpático e brincalhão que amenisava a viagem enfadonha. No dia-a-dia faziam-se novos conhecimentos ou encontravam-se tipos interressantes. Lembro-me que certa vez encontrei um cidadão fã de um rábula de Vitória de Santo Antão e propagador de suas aventuras e bravatas que muitas vezes batia advogados famosos. Ele contou que este rábula, se chamava João Lins de Albuquerque, e defendia em juri popular um acusado de assassinato, quando o promotor exibia aos jurados a faca usada no crime, explorando com inteligência o nojo do conselho de sentença. Percebendo que perdia terrano, João Lins na defesa, pediu um aparte e perguntou ao promotor, se ele sempre achava necessário exibir a arma do crime, mesmo admitindo que isso podia chocar a plateia. O promotor achando que estava ganhando terreno, disse que a mostra da arma era necessária para esclarecimento do crime, que os centímetros da faca apresentada davam a imagem da profundidade das lesões na vítima. A defesa então perguntou se o acusador levava sempre ao tribunal as armas do crime. O que foi respondido que sim. A sala estava tensa quando o advogado perguntou: E quando o crime é de estupro que arma o nobre promotor leva para tribunal? A plateia explodiu em uma sonora gargalhada, desconcentrado o promotor, o que beneficiou a defesa. Terminada esta e outras narrativas o meu novo companheiro de viagem perguntou se eu nunca tinha ouvido falar de João Lins. Admirou-se quando lhe respondi: Algumas vezes, ele era irmão de minha avó Angêlica. Conheci João Lins na casa de minha avó, no Recife onde eu menino, me hospedava com minha familia, vinda do interior. Era um sobradão no bairro de São José, sempre aberto para todos. Tio João Lins, já bem velinho, aparecia, em visita à irmã, maõs trémulas servindo-se à mesa. Juarez meu primo, gaiato, o chama de Tijolinho. Outra vez, no trem, uma jenela emperrada causava mal-estar pois o dia era de muito calôr. Um funciónario da estrada de ferro, tentou resolver o problema usando a alicate de perfurrar os bilhetes como alavanca, sem resultado. O impasse estava criado, quando um rapazinho de gestos afeminados adiantou-se, espalhafatosamente e quase gritanto: Deixa eu tentar! Deixa eu tentar!!!! Um senhor gordo, meia idade, chapelão, sentado junto da janela emperrada, pediu licença: - Deixa eu sair, menino, eu não aguento. Tenho três filhas e dois filhos. Se uma menina daquelas der pra quenga eu perdôo. É destino. Mas se um filho meu, macho, virar a mão, é coisa de safado. Eu mato. Tempos depois, com a estrada pavimentada, no tempo gasto de trem, eu de carro, saía do Recife, trabalhava no consultório odontológico da Usina Pedrosa e vinha almoçar no Recife.
Escrito por melo28 às 13h36
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CHAPA BRANCA josé roberto de melo Quando assumi a Prefeitura de Cortês, no ano de 1954, a nova cidade não tinha nenhum automóvel. O que era razoável. Não existia a estrada que existe hoje, pavimentada, e a carrosável, da época, ficava intransitável durante muito tempo, no inverno. O trem supria as necessidades locais. Era por ele que se chegava e saía da comuna. Com a instalação do novo serviço público vieram os problemas, entre eles o acesso pelos funcionários à zona rural. Foi quando João Venâncio um bom auxiliar que tive, me lembrou: comprasse um cavalo para a condução dos servidores. A decisão foi por um garboso burro, logo batizado pelo povo de "Chapa Branca." O animal foi muito útil no princípio da vida administrativa de Cortês onde fui o primeiro prefeito, muito jovem. Afirmava Afonso Saraiva, chefe do Departamento de Assistência as Municipalidades, que eu era o edil mais novo do Brasil. O povo dizia, ou inventava que Chapa Branca, alçado à prefeitura, tinha aprendido as manhas do funcionário público brasileiro, tornando-se malandro e enrolão. O que não concordo, nem quanto ao animal nem quanto aos funciónáros. Chapa Branca ajudou muito naqueles tempos bicudos da admimistração incipiente de Cortês. O que gozou foi aposentadoria regulamentar que os celegas que vieram depois de mim lhe deram. Quanto aos funcionários públicos sei e fui um deles, que trabalham muito, ganham pouco e levam a má fama por conta de apaniguados que de funcionários só possuem a nomeção, publicada no Diário Oficial, pois não comparecem nem trabalham. Apenas se ajoelham em refência a padinhos poderosos. E não sou eu que digo é imprensa que sempre denuncia estas mazelas.
Escrito por melo28 às 11h06
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CLETO PADILHA O cochilo em frente da televisão se aprofundou e só muito depois, acordei e ao me dirigir para a cama passei pelo quarto do computador e vi que o mesmo aida estava ligado. Entrei para desliga-lo e não sei porquê, senti uma vontade imensa de procurar o nome de Cleto Padilha na Internet. Cleto foi meu colega de turma no Colegio Diocesano em Garanhus, onde concluimos o curso ginasial. Depois disso não tivemos muitos contatos. Tomei conhecimento, certa vez de uma proeza dele no colégio para onde tinha migrado: metido na política estudantil, tinha feito desafetos pelo seu carater polêmico, a ponto de uma colega ter declarado que todo candidado apoiado por ele seria suspeito e indigno. Cleto pediu a palavra e disse que sua candidata era a colega que acabara de falar. Continuamos separados, apezar de estarmos vivendo no Recife, onde estudei Odontologia e ele Direito e depois de nós ambos sermos funcioários publicos. Lembro-me de um encontro que tivemos muitos anos faz, em Rezende, no Rio de Janeiro, em uma parada dos ônibus em que viajamos: eu para Caxambu e ele, se não estou enganado, para São Lourenço. Foi quando me confessou que estava morando a apenas um quarteirão de distância de minha casa na Tamarineira. Combinamos nos encontrarmos o que nunca aconteceu. Se contei os episoidios acima foi para acentuar que fazia muto tempo que eu não tiha convivência com Cleto. Nem razão para procura-lo na Intenet, mormente em fim de noite e hora de sono. Daí a minha surpresa quando descobri na tela do computor que Cleto Padinha, informava um bloqueiro, seu amigo, tinha morrido na noite anterior, depois de hospitalizado com a saude injuriada por um ataque de dengue hemorrágico. A parapsicologia ensina que informações podem chegar até nós sem que usemos os nossos sentidos. Menssagens diretamente para a mente. Mas, que nestes casos sempre existe a vontade do muribundo de se comunicar com o receptor. Que razões teria Cleto para se comunicar comigo?
Escrito por melo28 às 11h59
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Oh! MINAS GERAIS... José Roberto de Melo O meu amigo ia contando sua historia e eu ia me lembrando de minha avó Angélica. A parenta, morta já hà meio século, dizia que história estranha vinha sempre de Minas. Não sei por que ela dizia isso. Não sei se não gostava de Minas. Tadavia, sei que gosto das Minas Gerais e vou gostando mais à medida que vou descobrindo mais deste Estado. Encantei-me com Ouro Preto. Amei Tiradentes. Deslumbrei-me em Congonhas. Senti-me fora do mundo na Gruta de Maquiné. Despertou meu respeito São João Del Rei, com seus casarões seculares. Seduziram-me Cambuquira e São Lourenço no circuito das aguas . Mas, paixão mesmo tenho por Caxambu. A cidadezinha surpreende com a diversidade de aguas minerais das fontes no parque aquático; cativa com a delicadeza de sua população, onde você é cumprimentado por sorridentes pessoas que nunca viu; onde os carros diminuem a marcha e até param, quando você, descuidado, desce do meio-fio; surpreende pelo que é agora, sem necessidade do tempero histórico que possuem outros lugares do Estado. Além disso, me cativou a gentileza que ela me fez, tornando-me membro honorário de sua Academia de Letras. Mas estendi tanto os meus louvores a Minas que deixei de lado a história do mineiro. Desculpem: é coisa de velho. A história do meu amigo conta que ele quando nasceu, não esperou pela parteira, então o seu pai teve que se imbuir em trabalho para o qual não estava preparado. Cortado o cordão umbelical, não dispunha de um hemostático, então colucou sobre a ferida nada mais nada do que o fumo que usava para os seus cigarros de palha. O efeito da medicação na hora foi surpreendente, mas ficou uma sequela: por toda vida meu amigo "exala" tabaco pelo umbigo. Achei sensasional este masculino "incômodo" umbelical de fumo e pedi ao meu amigo licença para trazê-lo aqui para o meu blogue. Ele disse que podia faze-lo publicando apenas as iniciais do seu nome. Não vou publicar isso. Porém tenho o testemunho de Rubens de Azevedo, presidente da Sociedade Brasileira de Dentistas Escritores que, estava comigo na hora em que o caso foi narrado. Quem não acreditar pergunte a ele.
Escrito por melo28 às 11h36
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ESPÍRITO DE GATO Sonia Ronaldi, em seu livro Contatos Interdimensionais, onde narra contatos com espírito de mortos usando aparelhos como gravadores e computadores, conta que existem sinais da permanência de "almas'" de bichos lá no além. Diz ainda que muito do comportamento dos desencarnados se assemelha ao que tinha aqui na terra. Isso me deixou a pensar no desitino de um gato que tive lá em casa. Era filho de uma gata nossa, sem raça e sem beleza, mas que, não sei por onde andava, o certo é que aparecia com filhotes muito bonitos. Peludos aparentado uma raça, que eu sabia sabia explicar. Foi por um destes que se encantou uma tia de minha mulher que fez questão de leva-lo. No que foi atendida, pois não era possivel ficar com ninhada que a mãe dele produzia. Passado algum tempo a parenta de Ana voltou com a prenda. O gato tinha acabado com o sossego de sua casa. Subia pelas prateleiras que a senhora tinha nas paredes e muitas vezes quebrava objetos de muito valor estimativo. E contou mais um porção de coisas que certamente não seria apreciavel no currículo de um gato de familia. Na minha casa o gato continuou sua vida de desordeiro. Uma noite acordamos com um barulho enorme: ele tinha arranjado um briga com outro que aparecera e derrubou o aparelho de televisão que tinhamos no terraço. Mas, o pior era que teimava em consumar suas necessidades dentro de casa. Deixava os seus despejos nos lugares mais inconvenientes. Quando saíamos, tinhamos o cuidado de o deixar do lado fora. Quando voltávamos ele estava esperando, entrava na frente de todo mundo e fazia suas porcarias no meio da sala, levando minha mulher a beira de um ataque de nervos. Foi quando nos mudamos para um apartamento. Não podiamos leva-lo. Pela sua beleza não foi dificil arrajar quem o quizesse. Uma família o levou para um sítio os arredores do Recife e a última notícia que tive dele foi que subiu em uma árvore, não pode descer e fez um escarceu tão grande que assustou o bairro, sendo necessário chamar os bombeiros para o socorrer. Se eu tivesse intimidade com Sonia Rinaldi ia pedir notícias desse meu gato trapalhão. Será que os animais cumprem carma?
Escrito por melo28 às 18h05
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Trovão 12 Pode não parecer certo. Mas o mistério se sente, A saudade deixa perto, Quem fica longe da gente.
Escrito por melo28 às 01h51
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NO TEMPO EM QUE EU CLINICAVA josé roberto de melo Eu estava vendo na televisão o programa do Faustão, onde se contava as façanhas de um componês aqui do sertão de Pernambuco que, possuia três mulheres, em três casas diferentes e criava três dezenas de filhos, distribuidos nessas residências. Lembrei-me então de uma velha história, do tempo eu que eu era dentista da Usina Pedrosa, no município de Cortês. Atendia uma clientela da zona rural de educação muito precária. Aparecia gente tão despreparada que chegava no gabinete e sentava-se no pedal da cadeira de operaçôes. Os clientes para ser atendidos traziam um vale assinado pelo administrador do engenho. No vale da esposa ou companheira vinha o nome do marido. Um dia, no começo do expediente, notei que o nome de um documento tinha aparecido no atendimento a outra mulher, na semana anterior. Perguntei então a paciente se ela tinha sido atendida na semana passada. Ao que ela respondeu: -Não senhor. A semana passada quem teve aqui foi outra. Nós somos três. Guardei o nome do dono das três mulheres e logo depois ele apareceu no consultório. Aproveitei para saber o que estava ocorrendo e ele contou: Tinha mesmo três mulheres, duas eram irmãs e moravam todas na mesma casa com ele. Curioso, quís saber mais e lhe perguntei quem tinha tinha botado isso na cabeça dele, ao que respondeu: -Doutor, com o devido respeito, foi o senhor vosso pai. Meu pai era o farmacêutico da Usina, lá não tinha médico e era ela quem atendia a população doente. Procurei saber detalhes e o "sultão" contou: -Eu estava meio fraco pra mulher e fui pedir um remédio a ele. Aconselhou-me então que para funcionar perfeitamente o jeito era variar a raça. E explicou: se estivesse só com um morena, experimentasse uma galega. E deu tão certo que eu resolvi reunir todos os "remédios" lá em casa. E informou ainda: -Lá eu mantenho a ordem. Já tive mais de três. Guardo sempre um dinheirinho, pois quando uma se mete a besta, querendo passar os pés pelas mãos, eu indenizo, boto pra fora. Mantenho a ordem e a moral acima de tudo.
Escrito por melo28 às 18h08
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Escaninhos da Hipnose - 10 josé roberto de melo Recebi de um colega de Caruaru, aqui do estado, uma consulta. Ele queria que eu atendesse uma paciente portadora uma síndrome rara. Acreditava que a hipnose tinha "poderes" para resolver o caso. E para surpresa minha, recordou que dois alunos de Odontologia que foram hipnotizados por mim em curso ministado e que tinham recebido sugestões de bom desempenho escolar, posteriormente foram alunos laureados de turma na escola que frequentavam. São dois os tipos de pessoas que geralmente encontramos fazendo o primeiro contato com a hipnose. Um que não acredita que a hipnose funcione e outra que se entusiasma e passa a ver no hipnólogo uma pessoa de poderes icomensuráveis. Errados ambos. A credibilidade da hipose já foi reconhecida pelo Conselho Federal de Odontologia. O hipnólogo é um indivíduo normal que aprendeu a levar seus semelhantes a um estado alterado de consciência. Isto é a hipnose. E que a hipnose pode proporcionar resultados bem interessantes, não restam dúvidas. Um fato explica o caso: tive uma aluna que se esmerou tanto em passar no vestibular que entrou na universidade sofrendo uma desgradável gastrite. Passou por sério tratamento médico para se curar. Mas, logo no primeiro ano teve que enfrentar a cadeira de Anatomia, na época regida pelo professor Bionar da Hora que era muito rigoroso nas provas. A aluna teve de volta os temores e a gastrite. Ela me procurou pedindo que a hipnotizasse e deixasse-a relaxada para a prova. Seu pedido foi atendido e durante o transe lhe sugeri que não somatizaria mais as emoções. Ou seja, que o seu corpo não mais registraria potologicamente problemas psicológicos. Depois disso, fez boa prova, pois estudava, e a gastrite sumiu. Para sempre. Foi o que me disse, alguns anos mais tarde, quando a encontrei em um congresso, no Rio de Janeiro.
Escrito por melo28 às 17h33
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Escaninhos da Hipnose - 9 josé roberto de melo Um novo tratamento para emagrecimento está sendo feito na clínica Elite, em Malagana, Espanha. Afirma o hipnólogo Martin Shirran que muito bom resultado tem sido obtido. No paciente, sob hipnose, é simulada a prática de uma operação de redução de estômago. Procura-se reproduzir, tudo o ritual cirúrgico, como se de fato a operação estivesse sendo feita. Inclusive, detalhes de um centro cirúrgico, como por exemplo, cheiro de anestésico. Ainda durante o transe o paciente é informado dos possiveis resultados do ato. É cientificado que seu estômago já não possui tanto espaço para receber alimentos e que terá como consequência a diminição do seu peso. Os divulgadores afirmam que tudo, posteriormente, acontece como foi sugerido.. A explicação desse secesso se deve ao fato de que no transe hipnótico se atringe o sub-consciente do hipnotizado e este aceita como verdade tudo que se diz. Sem protesto. Acreditando que foi operado o organismo procede como se realmnente tivesse sido.
Escrito por melo28 às 18h44
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O ACIDENTE DESAGRADÁVEL josé roberto de melo Foi nos meus últimos tempos de consultório. Fim de expediente. Eu já cansado Quando me chega um casal com uma emergência. O paciente era um embarcadiço, panamenho, falando um português ruim .Acompanhado de uma moça que se mostrava pelo modo de vestir e falar como uma aderente da mais antiga profissão do mundo. Sem meias palavras: estava na cara tratar-se de uma prostituta. O caso era de uma inflamação periodontal aguda, com um dente superior fortemente abalado, quase caindo, já perdido. A primeira vista lembrei-me do que tinha visto em um cliente de meu colega Fernando Rosendo, quando a AIDS estava aparecendo. O diagnóstico veio mais tarde dos Estados Unidos para onde o homem viajou - o paciente era um aidético. Desconfiado procurei atender o cliente me cercando de todos os cuidados possível: usei máscara, luvas, óculos.... Removi o dente mais afetado e juntei outro, artificial., em uma “perereca” (dentadura parcial de acrílico) já em uso. O homem agradeceu o trabalho e confessou que,quando lhe disse para voltar para tirar os pontos, que viajaria no outro dia as 6 horas da manhã; Apressado, lavava o material, quando ao desmontar a seringa, aconteceu o acidente desagradável: piquei-me com a agulha que acabara de usar,..Fiquei apavorado. Por tudo. Pelas suspeitas do meu diagnóstico . Pela vida promíscua do paciente evidenciada pela companhia que lavara ao consultório.... Perdido, lembrei-me de Luis Carlos Diniz, médico, professor, meu colega na Universidade do Estado de Pernambuco. Que havia dirigido uma enfermaria de aidéticos no Hospital Osvaldo Cruz, onde trabalhávamos. O meu amigo ponderou que o caso era sério e que eu devia procurar o serviço especializado no Hospital Correia Picanço..O que fiz de imediato. Fui muito bem atendido e informado que se não dispunha do paciente para o exame, eu mesmo devia fazê-lo e me cercar dos cuidados preventivos. O teste deu negativo, mas, tive que tomar o coquitél indicado no tratamento e me submeter aos exames periódicos.. durante certo tempo. A doutora que fazia as revisões era muito simpática e dela não tenho de que me queixar, pelo contrário, só tenho que agradecer. Chato era a convivência com os “colegas” em tratamento. Rapazes, muito a vontade na sua opção sexual, vestindo-se a caráter, e falando alto no banco de espera.. Minha figura encanecida no meio da turma era destoante. Recebi muitos olhares de surpresa e de desconfiança.. Mesmo me fazendo acompanhar de Ana Maria, numa demonstração pública de que era casado e que não compactuava com as preferências do grupo onde estava. Envergonhado pedia a Deus que acreditassem nisso. O dia em que recebi alta, quando estava livre, foi de muita felicidade. Vencia a doença e o boato.;
Escrito por melo28 às 12h20
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Esperando Lampião josé roberto de melo Eu tinha de 7 pra 8 anos quando este fato aconteceu.. Morava em Camocim de São Felix no dia que a vila estremeceu com a notícia, ou o boato, de que a terrinha seria atacada pelo bando de Lampião. Foi um reboliço. Logo chegaram homens recrutados das fazendas, armados com rifles que se posicionaram nos telhados das casas, preparando a emboscada, por trás dos parapeitos. Meu pai tinha saído para uma cidade próxima e minha mãe correu para o telefone implorando a ele que não voltasse, com o carro, um modelo 1928, sujeito a ser atacado pelos cangaceiros nas estradas Dona Bibi começou a preparar a própria defesa. A porta da frente foi escorada com a máquina de costura e a porta da cozinha com um pesado pilão de madeira. Lembro-me, e isso se passou há mais de setenta anos, que espiei por uma brecha da janela e vi a rua completamente deserta. Ninguém circulava. Foi nos dado uma refeição ligeira e todos eu e os meus quatro irmãos na época, fomos convocados para dormir na cama do casal. Éramos quatro meninos e Gláucia a única menina, ainda bem novinha. Tremíamos de medo, As histórias pavorosas do cangaceiro era contadas nas conversas de cozinha e cantadas nas feiras pelos cordelistas. Mas a cama de mamãe era um conforto. Nela, acreditávamos, protegidos das maldades do mundo. Sentíamos isso. Era difícil dormir. Lá para as tantas da noite ouvimos uns tiros. Agarramos uns aos outros temendo a violência esperada. O medo era tão grande que ninguém tinha ânimo de chorar. Segui-se o silêncio,que também era aterrador quando não sabíamos o que estava acontecendo. Somente no dia seguinte se comentava que a policia tinha atirado quando percebera alguém se mexendo dentro de um cafezal que fazia limites com a zona urbana., e ninguém tinha sido mis visto. Pouco depois de meia noite, Odilon, meu pai chegou. Ele não se conformava eu ficar ausente quando a família estava à mercê de cangaceiros. O resto da noite que parecia se espichar e não acabar nunca, foi sofrido minuto a minuto, até que dia veio, claro, bonito, salvador. Graça a Deus não vieram os bandidos. Tínhamos sofrido um rebate falso. Mas que foi ruim, foi.
Escrito por melo28 às 12h39
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MAROCAS – A BURRA josé roberto de melo Na matéria anterior referi-me a Marocas, uma burra que conheci na Fazenda Radiante, do meu amigo Carlito, lá em Arcoverde, sertão de Pernambuco.Foi uma citação rápida para um animal muito interessante. A revista Seleções publicava (não sei se ainda publica) uma página denominada “Meu Tipo Inesquecível” onde os autores faziam relatos sobre pessoas que os tinha impressionado. Se eu tivesse que escrever coisa semelhante sobre animais, Marocas seria meu bicho inesquecível.. Ela era alta como burra, uma espécie bonito, sempre de cabeça erguida enfrentando desafios. Mas não era o seu tipo físico que impressionava. Era o seu comportamento que, hoje, mais de sessenta anos passado não consigo esquecer. Primeiro a sua preferência pelo sexual a que me referi anteriormente. Criador nenhum se interessa por sexo de burro, , animal híbrido que não procria, é infértil, não dá lucro. Marocas, como já relatei, não se conformava com isso. Aparecesse o garanhão no seu caminho ela perdia a cabeça, derrubava cavaleiro, pulava cerca e corria para se esfregar no objeto dos seus desejos. Livre, transformada, sedutora.. Fiel aos prazeres da carne. Também não se conformava com o trabalho escravo. Tinha suas preferências. Havia dia que escolhia o seu roteiro. Alguém a selava para um serviço qualquer e ela não estava nem aí. Aberta a porteira do cercado, ela tomava o caminho da casa de Xelé, um antigo vaqueiro da fazenda que morava há cerca de um quilometro da casa grande. Ia matar suas saudades pois vivera algum tempo naqueles campos. Uma sentimental, fiel ao seu passado. Um dia, chateada da vida, ganhou o mato com bornal no focinho. Bornal é um saco de pano que se bota no focinho do animal com o alimento. Terminado este o bornal é um estorvo. O bicho não pode comer mais nada. Pois bem, Marocas ficou quase uma semana sumida na caatinga, fazendo greve de fome. Até que apareceu, magra, porém livre da depressão. Acho que se fosse no tempo da ditadura militar, ela teria sido acusada de subversiva e corrupta.. Na Fazenda Radiante a condução era cavalo ou burro. Eu preferia sempre sair montado na Marocas. E acho que ela gostava de mim. Nunca me fez uma falceta.
Escrito por melo28 às 10h07
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O ANEL PARTIDO josé roberto de melo Hoje eu tenho alguma explicação para coisas não muito corriqueiras, outras não. Tudo começou quando iniciei o curso de Odontologia e percebi que Odilon Mello, meu pai, farmacêutico diplomado, resolvia muita coisas com soluções não muito ortodoxas. Fiz pós-graduação no Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas que me deu o título de Parapsicólogo. As observações sobre meu pai valeram para reconhecer que ele era um paranormal e minha dissertação de conclusão de curso, baseada nessas observações, foram publicas em livro com o titulo – A Paranormalidade no Cotidiano (Edições Bagaço). Tenho dificuldade de incluir nas normas da Parapsicologia o caso que passo a contar. Eu tinha meus 17 anos e estava no Recife com meu amigo Carlos Prestes Cavalcanti, que não era o histórico Cavaleiro da Esperança, mas o meu companheiro de infância – Carlito, jovem mais ou menos da minha idade. Ele me convidou para visitar uma vidente em busca de solução para um caso de amor. Coisa da juventude. Fomos à casa no bairro de São José e Carlito saiu de lá contando que a mulher lhe avisara que ele corria um sério perigo – um acidente que poderia ter conseqüências trágicas. Mas tudo tinha uma solução: bastava que ele comprasse um anel de ouro e o levasse para ela transformar em um amuleto que o protegeria.. Cartlito comprou o anel e passou a usa-lo depois de preparado. Algum tempo depois estávamos na Fazenda Radiante, em Arcoverde, de propriedade do pai de Carlito. A manhã era de sol e nos preparávamos para um passeio a cavalo. Lembro perfeitamente. Eu montava Marocas uma burra bem mansa. É verdade que manhosa. Se no roteiro aparecesse um garanhão, ninguém se espantasse se ela rompesse todo compromisso pra ir atrás do sedutor. Carlito montava um cavalo árdego, inquieto, usado pelos vaqueiros na pega do boi na caatinga. Corria no matagál, desesperado, fazendo do seu montador um artista para não ser cuspido fora. O cavaleiro tinha que se abaixar, ficando da altura da cabeça do bicho para não ser arrancado do mesmo por algum galho, mais baixo, atravessado no meio do percurso. Esses animais quando cismam em se meter no mato não querem saber se quem está montado quer fazer o mesmo. Partem desabaladamente. Foi o que aconteceu com o meu amigo naquele dia..O animal de repente, disparou por dentro do mato e a gente só ouvia o barulho dos galhos quebrados e os gritos do cavaleiro. Logo depois o estrondo da queda.Um tombo de estarrecer. Fiquei apavorado imaginando como ia encontrar o meu amigo. Parti na busca, Marocas caminhando devagar mato a dentro. Logo depois ouvi as risadas que Carlito dava. Encontrei-o no chão, seu um arranhão, meio tonto da queda violenta... Logo ele me mostrou o anel no dedo. Estava partido..O aro fraturado Todavia ele estava são e salvo.
Escrito por melo28 às 12h36
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ESCANINHOS DA HIPNOSE – 8 josé roberto de melo Há cerca de 20 anos pronunciei uma palestra em um congresso de Odontologia, sobre hipnose, em Fortaleza. Na primeira fila, um colega parecia me entender e aprovar com muito gosto o que eu dizia. Terminada a fala ele se aproximou, apresentando-se. Era Ivan Cesar que fazia hipnose desde algum tempo no Ceará.. Já tinha escrito livro sobre o assunto. E foi direto a me “intimar” a comparecer aos congressos de hipnose de Caxambu. Foi quando tomei conhecimento da existência do Congresso Sul Mineiro de Odontologia, presidido por Alfredo Campos Pimenta, efeméride que se acompanhava sempre do Congresso de Hipnose e Medicina Psicossomática. Deste último participavam, não apenas dentistas mas, profissionais de vários ramos da saúde. O conclave fazia de Caxambu uma Meca da hipnose no Brasil. Lá tive contacto com luminares da Odontologia, praticantes de hipnose, como Álvaro Badra, Ênio Lima, Eloy Teixeira e muitos outros. Lá fiz e ministrei cursos. Tornei-me freqüentador assíduo durante os últimos anos. Em Caxambu conheci o Dr. George Alakija, um médico,. psiquiatra, baiano, que impressionava com sua figura de afro-descente e o porte fidalgo. Constava que vinha de uma ascendência nobre africana..Tinha uma conversa muito agradável e uma excelente cultura. Ofertou-me um livro de sua autoria sobre hipnose. Muito bem escrito, de- linguagem clara e escorreita , faz uma pesquisa sobre a hipnose da época, mostrando as teorias em evidência, sem tomar partido. Fala de sua experiência profissional empregando a hipnologia. Conta a história da hipnose na Bahia com a passagem por lá de alguns hipnotizadores de palco..Um livro muito sério, tratando a hipnose no seu aspecto científico. Muito bom para se indicar para uma pessoa interessada em se iniciar em hipnose.. Por isso não gostei do título: Hipnose Pitoresca. Ele sugere um aspecto leviano que a obra não tem. Pena que o livro hoje não se encontre disponível nas livrarias. O congresso de Hipnose e Medicina Psicossomática tem encolhido. A morte com seu poder inexorável tem ceifado a vida de companheiros que o sustentavam..Morreu, entre outros, o Ivan Cesar..que sempre comparecia, as vezes levando um livro novo de sua autoria. Em um deles, deu-me a honra de escrever um capítulo. Eu não tenho faltado, mas, com tanta gente morrendo e minha idade, 82 anos, desconfio que serei a bola da vez. Recentemente o Conselho Federal de Odontologia reconheceu oficialmente a hipnose como terapia alternativa, autorizando a sua prática por profissionais autorizados - um sonho do congresso de Caxambu realizado Agora o que falta é inclusão da hipnose no currículo mínimo do curso odontológico. A humanidade agradecerá.
Escrito por melo28 às 21h37
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A GRAÇA DA MOÇA josé roberto de melo A moça na dança Era cheia de graça Tanto assim que a brisa Passava indecisa Pois, vendo-a tão bela Queria ficar! A graça da moça, Bem logo se via. Não copiava Maria, Imaculada, sagrada, Era a graça da raça, Que nela sorria, Com todos os mistérios Da mãe Iemanjá. Outubro de 1980.
Escrito por melo28 às 18h28
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