VOLTEI...
josé roberto de melo A ultima reprovação traumática de que eu me lembrava era de 1944. Foi no primeiro ano científico no Celégio Padre Felix. Eu estava acostumado em, no Colégio Diocesano de Garanhuns, aparecer nos primeiros lugares. Não, diga-se a verdade, nos primeiríssimos. Estes eram dos oblatos, chegados no Covento dos Beneditinos, que estudavam conosco no Diocesano, cursando o ginásio.Mas, na ala seguinte, dos melhores, eu figurei durante todo o tempo. Saindo do internato para estudar externo no Recife, a adptação não foi fácil. O padre dono do colégio era político. Havia os alunos filhos de seus correligionários e amigos. Eu me sentia em uma casta inferior. Não sei se com justiça. Mas sentia a descriminação e preconceito. A reprovação atual foi no exame de vista do DETRAN. E o pior é que a médica examinadora foi minha aluna, no curso básico, na Universidade do Estado de Pernambuco. Ví minha auto-estima escorrendo pelo cano. Senti-me um lixo. Mas, o jeito foi sacudir a poeira e dar a volta por cima, mesmo sem muito ânimo, diga-se de passagem. Tive que me livrar da catarata que, aliás, já havia sido diagnosticada há um tempinho. Mas eu achava que estava ainda vendo muito e bastava para o gasto. Não gosto muito de me dispôr à operação. Só entro quando não vejo alternativa. Mas essa de catarata tem seus encantos. E posso jurar para os que estão necessitados de enfrentar o mesmo barco: não dói nada. No mesmo dia a gente já sai do hospital vendo tudo e com muitas surpresas. Se descobre uma alvura que dormia esquecida por muito tempo. E percebe-se que a sujeira mais recente não era do mundo mas, estava em coluio na intimidade interna dos nossos própios olhos. Então vem o lamento pelo tesouro azulecido que estávamos perdendo. A gente fica com vontade de imitar o poeta Carlos Pena Filho que confessou ter pintado de azul os seus sapatos por não poder de azul pintar as ruas. E também a vontade de me desculpar com a hematoxilina, corrante das láminas do curso de Histologia que ensino na faculdade. A catarata estava me impedindo de perceber com clareza as nuances de azul que ela oferece ao microscópio. Na cirurgia atual de catarata o cristalino - lente natural de olho - é substituido por uma lente sintética. No meu caso o dr. Marcelo Ventura aconselhou uma lente especial, capaz de corrigir parte do estigmatismo que eu possuia. Foi como introduzir não somente o cristalino, mas, parte dos óculos que eu usava, dentro o olho. A ciência vai fazendo de nós um pouco daquele personágem de ficção que o cimena divulgou como o homem articialmente reproduzido por seis milhões de dólares. Eu já tenho umas coisinhas que não fazem parte do meu soma natural recebido por obra e graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na conta vão uns dentes; uma tela que carrego no ventre, artificial, e preventiva contra a reeincidência de um par de hernias que me acompanhou na vida por muito tempo. Aliás, estas hérnias já estavam na mira da segurança nacional. Uma vez, no aeroporto do Rio de Janeiro, fui cercado pela polícia federal e os caras usando a disposição treinada na época da ditadura militar, perguntaram sem mais delongas apontando para a infeliz: "O que senhor porta aí?" A polícia tem seu jargão. Coisa suspeita não se carrega, se porta. Ana Maria, minha mulher que me acompanhava, amarelou, mas eu não tinha o que esconder, disse e perguntei se era para mostrar. O cana riu amarelo e, encabulado, me deixou passar. Agora a soma de partes novas acrescidas à matéria do velho Zé Roberto cresce com o par de cristalinos supra-mencionado. Estou desconfiado que, se viver mais alguns anos, vou me transformar em um molho de coisas contrabandeadas da China. Neste resto de vida não vou ganhar mais seis milhões de dolares para me transformar em um falso legítimo. Durante estes dias em que estive meio "depré," sem escrever, não deixaram de aparecer o registro das visitas a este blog. Pingavam, não digo com a rabugência de uma torneira de sola estragada, vasando em noite de insônia. Mas com a constância do canto das cigarras que ouço aqui da varanda no meu quarto e agradavel como a melodia repetida no Bolero de Ravel. Até e-mail e cartas recebi perguntando o que estava havendo. Agora operado e de lentes novas, me sinto mais seguro para monobrar este computador e agradecer tudo de bom que vocês me ofertaram. Acho que ainda dá para viver algum tempo. Embora haja controvérsias. A doutora que renovou minha licença de habilitação para dirigir só me deu um ano de validade. Tudo como o poeta na canção pupular: "Velhice chegando e eu chegando ao fim."
Escrito por melo28 às 10h44
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