BLOG DO ZÉ ROBERTO


RONILDO

                  josé roberto de melo

   Morreu Ronildo Maia Leite. Com ele foi um pedaço do meu passado. A gente se esquece que viver é morrer um pedacinho cada dia. Como uma homenagem, do meu jeito, transcrevo aqui uma crônica do meu livro  Memento do Floclore Odontológico.(Ed. Bagaço)

         TORTURA DUPLA, NÃO!


   Ronildo Maia Leite, repórter premiado, jornalista para quem o diploma universitário não foi o instrumento inicial, dir-se-ia antes uma comenda referendando o ato já praticado. Vida dedicada à imprensa do Recife, passando pelo extinto Jonal Pequeno, ainda portando os pelos dos cueiros. Abrindo espaço com a cara e coragem. Com  a vontade de vencer que trouxe de Garanhuns e a responsabilidade de descendente do velho Thomas Maia. Somente depois fez faculdade. Garanhuns ainda hoje respinga no seu estilo peculiar quando não se desgruda totalmente do linguajar da infância, chamando, por exemplo, marginal de "maloqueiro". Foi lá.na cidade fundada por Simôa Gomes. que, nós, eu e ele, nos conhecemos e padecemos sob o poder do Padre Adelmar Valença, no Celegio Diocesano. Padre educador de machos que continua meu guru por toda vida

     Ronildo foi amizade conservada no Recife. Cultivada nas conversas intermináveis noite a dentre, quando sentávamos em qualquer mio-fio de rua do bairro Boa Vista. Ou nas madrugadas dos bares, até que uma cerveja mais afoita saturasse o limite do amigo e viesse a frase fatal na transformação brusca da lucidez ao porre, com um linguajar chiado que dá a cara-cheia:

   -Eu xei que xou chato!

   Ronildo mergulhou de corpo e alma na aventura que o lançamento do jornal  Última Hora no Recife, defendendo princípios que o movimento militar de 64 não perdoou e puniu fechando o periódico. Se a coragem e ação caracterizavam o profissional no seu mistér de informar e reformar, o cliente Ronildo, que Deus me perdoe a transgressão da ética, não era dos mais fácies. Carregava os anseios e o medo matirizadores de tantas pessoas. Apesar de ser na época casado com uma dentista, me deu a honra de cuidar de seus dentes e paciência de aturar os seus temores. Daí a minha supresa quando um dia me procurou no velho sobradão do Páteo do Carmo, onde funcionava o Serviço Odontológico dos Servidores do Estado de Pernambuco (IPSEP), com uma disposição inabalável:

   -Quero tirar um dente!


   Examinei o elemento apontado e concluí que a exodontia não estava indicada, a preferência devia ser pelo tratamento conservador que preservaria o dente, se restaurado. Mas, não houve argumento que o convencesse: queria por que queria, fazer a extração, o que acabei fazendo, embora constragido por estar violando as minhas convicções.

   Terminado o ato, Ronildo que se portara de uma maneira estoicamente tranquila a contrariar sua maneira habitual de comportamento desabafou:

   -Olha rapaz, eu estou intimado para uma Comissão de Inquérto Policial-Militar para amanhã à tarde. Posso ser preso. Já pensou o cara torturado e ainda por cima com dor de dente?

 



Escrito por melo28 às 09h41
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